domingo, 30 de março de 2014

O Livro das Bem-Aventuranças - parte 1

Tema 25

O Livro das Bem-Aventuranças - parte 1

Dr. José Carlos Ramos
Março, 2014

            Os dicionários definem bem-aventurança em termos de felicidade absoluta e perfeita. Tendo em conta que Deus, em sua amorável solicitude por Suas criaturas, almeja que todos sejam autenticamente felizes, podemos considerar a Bíblia toda como um livro de bem-aventuranças. Ela contém as orientações divinas que, uma vez seguidas, tornar-nos-ão felizes nesta vida, e nos assegurarão a posse da vida eterna em Seu reino, onde jamais penetrarão a dor e a tristeza. “Bem-aventurado aquele que teme ao Senhor e anda nos Seus caminhos... feliz serás, e tudo te irá bem” (Sl 128:1, 2).

O Caráter Escatológico das Bem-Aventuranças do Novo Testamento

             A palavra grega makários, que significa bem-aventurado, feliz, é empregada umas 50 vezes pelos escritores do Novo Testamento, a maioria em alusão a alguém que se submete a Deus e aceita as provisões da redenção em Cristo. Revestem-se, portanto, de um colorido escatológico, isto é, relacionado com a manifestação final dos propósitos divinos de salvação.
Nada pode conferir maior senso de felicidade a um pecador que a consciência de ter sido perdoado por Deus e aceito por Ele como filho amado e herdeiro dos bens eternos. Não há uma situação mais ditosa, e tal experiência compensa qualquer dificuldade ou tribulação que porventura tenhamos de enfrentar na qualidade de seguidores de Cristo. Paulo afirmou com toda a confiança: “para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada em nós” (Rm 8:18).
            Os Evangelhos de Mateus e Lucas se destacam no emprego de makários com mais da metade das referências de todo o Novo Testamento. Ambos os evangelistas registram o célebre sermão da montanha proferido por Jesus no princípio do Seu ministério. Este sermão é, de fato, a carta magna do reino de Jesus.
A versão de Mateus é a mais conhecida. Quem já não se emocionou lendo ou ouvindo aquelas abençoadas declarações que Jesus proferiu na abertura do Seu sermão? “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurado os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Bem-aventurado os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurado os limpos de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurado os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por Minha causa, vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus” (Mt 5:1-12).

Apocalipse – o Livro das Bem-Aventuranças

O Apocalipse registra 7 vezes a palavra makários, quase todas na segunda metade do livro:

·    Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo (1:3).
·         Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham (14:13).
·      Bem-aventurado aquele que vigia e guarda as suas vestes para não andar nu, e não se veja a sua vergonha (16:15).
·         Bem-aventurados aqueles que são chamados para a ceia das bodas do Cordeiro (19:9).
·     Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com Ele os mil anos (20:6).
·         Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro (22:7)
·      Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras, para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem pela cidade pelas portas (22:14)

O número 7 sugere perfeição, plenitude, e o termo é empregado com uma ênfase que nenhuma outra parte do Novo Testamento poderia oferecer com tanta propriedade. Se é verdade que o emprego do termo no Novo Testamento apresenta um colorido escatológico, no Apocalipse, então, ele se volta inteiramente à consumação final. As bem-aventuranças apocalípticas são proferidas na perspectiva do que Deus realizou em nosso favor na pessoa de Jesus, do que Ele está fazendo agora, e daquilo que virá depois, quando a História tiver alcançado o seu grande clímax e o pecado sido extirpado definitivamente, abrindo espaço para a implantação do reino divino no mundo.
            Acho que isto nos autoriza a considerar o Apocalipse o livro das bem-aventuranças por excelência. Em algumas mentes, infelizmente, predomina a ideia de que o Apocalipse não é mais que um livro de maus presságios, cujos quadros fatídicos exibem o desfile de figuras enigmáticas comissionadas por Deus para cumprir uma terrível tarefa de destruição no mundo. Nada corresponderia melhor à irrealidade. Para muitos, é verdade, a simples palavra apocalipse desperta incerteza e temor. Mas a intranquilidade é fruto do pecado e não da ação divina, a qual visa apenas salvar. Tudo o que Apocalipse revela de medonho e triste tem a ver essencialmente com as consequências do pecado.
Naturalmente, o tratamento de Deus com toda essa problemática pode exigir uma atitude drástica, tal como um cirurgião à vezes se vê na necessidade de, para benefício do corpo, amputar um órgão gangrenado. As ações de Deus objetivam o bem maior da erradicação completa do pecado com todas as suas implicações. O pecado sempre foi e sempre será um fator de degradação e miséria, e quanto mais cedo desaparecer melhor. O que Deus mais almeja é conduzir a Terra ao seu estado original de perfeição. E a cirurgia, naturalmente, tem o seu lado doloroso. Jesus mesmo se referiu ao “princípio das dores” (Mt 24:8) ao falar dos sinais de Sua volta e do fim do mundo.
Estes mesmos sinais, entretanto, são um fator de ânimo e conforto para aqueles que almejam o reino de Deus (Lc 21:28). É apenas para aqueles que desprezam a graça divina e escolhem a senda do mal e da perdição, que o ato divino será de efeito desastroso. E este não é o teor apenas do Apocalipse. Toda a Bíblia revela que o futuro é muito sombrio para blasfemadores, hipócritas e infiéis.

Assim, para os que amam a Deus, o Apocalipse não é menos que um livro de bem-aventuranças. Meditemos um pouco nelas e ouçamos a voz de Deus assegurando uma vez mais que só temos a ganhar quando damos ouvidos à Sua voz e nos dispomos a fazer a Sua vontade.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Tema 24

Apocalipse: auxílio divino
na hora certa – Parte 02

Dr. José Carlos Ramos
Fevereiro, 2014

      Na postagem anterior, considerei que o Apocalipse foi escrito num momento crucial da história do cristianismo. O fim do primeiro século se aproximava e a grande maioria daqueles que haviam conhecido pessoalmente a Jesus já não existiam. Do corpo apostólico, apenas João ainda vivia, contudo não por muito tempo mais, face à sua avançada idade.                                                             Duas situações adversas concorriam para a instabilidade da Igreja e o esmorecimento na fé.                                                                 De um lado, o insidioso gnosticismo, com sua atraente proposta de posse da verdadeira vida por meio da gnosis, ou o conhecimento dos mistérios de Deus e de Seus propósitos. Ele fazia suas incursões e ganhava a cada dia novos adeptos dentre professos cristãos. A verdadeira fé estava sendo minada, e muitos simplesmente não percebiam o perigo. Encantavam-se com a ideia gnóstica de possuírem uma alma imortal, e com a perspectiva de, pela morte, terem-na libertada para o desfruto pleno da imortalidade. Assim, perdiam de vista o único recurso de salvação.                                          A Igreja necessitava de uma nova “revelação de Jesus Cristo” como Senhor da glória e Salvador exclusivo. Essa revelação se tornou possível com o Apocalipse (ver 1:1). Esse livro faz coro com o restante do Novo Testamento ao afirmar que a única morte que liberta é a de Jesus (1:5), e que a ressurreição no dia de Sua segunda vinda é o único portal para a imortalidade (20:6).                       Outra situação, agora de caráter externo, igualmente ameaçava a Igreja: a intolerância imperial. Os fogos da perseguição já se avivavam, e a Igreja necessitava de um novo fortalecimento tal como apenas o Apocalipse poderia oferecer.

Culto ao Imperador
           
    Um dos últimos imperadores de Roma no primeiro século chamou-se Domiciano. Entre outros abusos, ele reacendeu a prática do culto ao imperador, intensificando uma situação que inevitavelmente resultou em perseguição contra os seguidores de Jesus. 
      A partir do segundo século a.C., quando os exércitos romanos avançavam com suas campanhas para a formação de um grande império, depararam uma variedade de cultos e crendices religiosas. Cada nação conquistada possuía seus próprios deuses, a quem adorava de forma específica. Cedo os conquistadores entenderam que a tolerância religiosa seria conveniente, desde que condicionada ao reconhecimento da “divindade” de Roma.
    Com o tempo, o culto a Roma foi sendo suplantado pela adoração aos imperadores mortos, e, então, àquele que exercia o domínio. Com isso, os romanos alegavam que, muito ao contrário de proibirem o culto local, estavam na verdade incrementando-o. Mas o que de fato objetivavam era a unificação religiosa e política do Império.
      Tal condição foi acatada como verdadeiro privilégio na região da Ásia Menor, cujos habitantes devotavam grande estima pelos mandatários romanos. Em 195 a.C., um templo foi levantado em Esmirna em homenagem a deusa Roma. Em 29 a.C., sob César Augusto, outro templo foi erigido, agora em Éfeso, para a adoração conjunta de Roma e Júlio César, enquanto que um terceiro era construído em Pérgamo em homenagem ao próprio Augusto.
      Tibério sucedeu a esse imperador e foi sucedido por Calígula em 37 a.D., um lunático que pretendia deificação absoluta. Após a morte de Calígula em 41, o culto ao imperador caiu em desuso, até que Domiciano, uns 40 anos mais tarde, começou a reinar, e o reativou. Suetônio, historiador romano, registra que Domiciano expedia os decretos imperiais encabeçando-os com os termos: “O vosso senhor e vosso deus Domiciano assim ordena...”

                                  O Apoio Indispensável

      As províncias romanas da Ásia, precisamente onde agora se localizavam as sete igrejas referidas no Apocalipse e às quais o livro foi particularmente endereçado, novamente acataram com entusiasmo o referido culto, e os cristãos ali defrontaram um momento crítico. Na verdade, em todos os lugares sofreram eles os efeitos da determinação imperial, e começaram a ser perseguidos; mas isso ocorreu, em especial, na Ásia. O momento era realmente difícil. Como afirmei, a Igreja entrava para o segundo século e não podia então nem mesmo contar com o precioso apoio espiritual dos apóstolos, já que quase todos estavam mortos. Restava apenas o idoso João. Mas como receber nesse momento o apoio apostólico indispensável, se o único apóstolo sobrevivente fora banido para a colônia penal de Patmos, justamente por decreto de Domiciano, o perseguidor da Igreja?
      Foi nessa hora decisiva que Deus atuou em benefício do Seu povo, dando a João as revelações que proveram o conteúdo do Apocalipse. Fazia-se necessário um novo vislumbre do Cristo glorificado, um vislumbre que viesse fortalecer a Igreja na certeza do Seu amor, sabedoria e poder. Outorgando o Apocalipse, Deus deu à Sua atribulada Igreja um vislumbre das realidades celestiais. Jesus transcendia em glória, majestade e poder, infinitamente mais que o maior imperador terreno; e, o que era mais importante, os cristãos poderiam contar com o Seu desvelo, interesse, e direção. Mesmo diante da morte não deveriam temer, pois o Senhor, a quem serviam, havia triunfado sobre ela e sobre todos os demais inimigos; e tal triunfo pertencia também a eles. “Não temas as coisas que tens de sofrer... Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2:10). 

Conclusão: Apocalipse, Auxílio Divino Hoje 

      Ser cristão hoje aparenta ser mais fácil que no tempo em que o Apocalipse foi escrito. Afinal, não existe por aí nenhum rei ou presidente reclamando adoração e serviço. Há liberdade de consciência e de culto.
   Não nos iludamos, porém! O verdadeiro cristianismo nunca contou nem contará com a aquiescência e o louvor do mundo, pois Satanás é o real inimigo do povo de Deus em qualquer época ou lugar. As condições aparentemente favoráveis do momento não perdurarão indefinidamente. O Apocalipse afirma que poderes despóticos e antagônicos estarão de volta, e a intolerância e perseguição contra os que querem servir correta e fielmente a Deus caracterizarão os últimos dias da História (ver os capítulos 12, 13 e 17). Por outro lado, vive-se hoje a época áurea da proliferação do engano. Como Cristo afirmou que seria, a iniqüidade se multiplica e o amor “de quase todos” pela verdade está cada vez mais frio (Mt 24:12).
     É imperativo que nos familiarizemos agora com as orientações da Palavra de Deus, e que nos apoderemos deste maravilhoso vislumbre de glória, poder e majestade divinos que o Apocalipse nos oferece. Mais que nunca, a certeza do amor de Jesus, a confiança de que os propósitos de Deus estão sendo e continuarão a ser plenamente cumpridos, e de que finalmente a Igreja estará vitoriosa no reino celestial, precisam ser constantemente reafirmadas e consolidadas em nossa experiência cristã.
    Só assim estaremos seguros e marcharemos triunfantes para o glorioso dia da volta de Jesus a este mundo. Só assim teremos as promessas apocalípticas de alegria e felicidade eternas plenamente cumpridas em nós e para nós. Só assim constataremos que de fato o Apocalipse é auxílio divino na hora certa.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Apocalipse: auxílio divino na hora certa - Parte 01

Tema 23

Apocalipse: auxílio divino
na hora certa - Parte 01

Dr. José Carlos Ramos
Janeiro, 2014

            O maior livro profético da Bíblia, o Apocalipse, foi escrito para orientar, estimular e fortalecer a Igreja em todos os tempos. De fato, desde que fundada por Jesus, ela se viu em meio às tormentas e enganos de um mundo hostil e ameaçador, inimigo do bem e de quantos se colocam do lado de Deus e de Sua vontade. Cristo advertiu Seus seguidores a que não se iludissem com a ideia de que não enfrentariam dificuldades no trajeto para o céu. O evangelho da prosperidade, pregado por algumas igrejas atuais, não condiz com as claras afirmações bíblicas, de que todos aqueles “que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3:12), e de que “através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14:22).
            Satanás, o rebelde inimigo de Deus e de Seu povo, tem empregado dois recursos básicos na tentativa de destruir a Igreja: a perseguição, motivada pelo preconceito e intolerância do mundo, e a disseminação do engano, para o quê ele forçaria a entrada nos domínios do cristianismo. E foi exatamente nesse contexto duplo de artifício satânico que o Apocalipse emergiu. O ano era 95AD, quando a Igreja enfrentava dois tipos de ameaça, uma interna, a adoção de conceitos pervertidos, e outra externa, a perseguição por parte do mundo. Naturalmente entendemos que a primeira, sutil e por isso perigosa, sempre resultou em maior dano espiritual. Consideremo-la inicialmente.

Ameaça interna

            No fim do I século, uma filosofia religiosa, grega de origem, conhecida como gnosticismo era difundida em todo o império romano. Sustentando múltipla expressão de pensamento e prática, o gnosticismo estava sendo, já por algum tempo, uma séria ameaça para a pureza doutrinária da fé cristã, com respeito principalmente à pessoa do Salvador, à natureza da criação divina, à natureza do ser humano, e à forma como este poderia ser redimido.
            Muitos na Igreja se sentiam atraídos por conjeturas que ofereciam uma lisonjeira perspectiva de superação dos obstáculos à posse plena da vida autêntica, disponível, segundo a filosofia, apenas àqueles que obtivessem o conhecimento dos mistérios divinos. Tal conhecimento, identificado como gnosis, era supostamente outorgado, é claro, àqueles que adotavam o gnosticismo. O cumprimento de certos rituais de iniciação conferia ao candidato o título de mystes, o que outorgava a obtenção progressiva de um conhecimento que, era crido, libertá-lo-ia e lhe daria uma condição superior de vida. Naturalmente as verdades do Evangelho eram distorcidas, e o pecador era acalentado num ilusório e fatal sentimento de segurança.
            Por esse tempo, alguns mestres cristãos deixavam transparecer suas tendências gnósticas. O gnosticismo tornara-se agora uma ameaça interna real. Entre esses mestres, destacava-se certo judeu cristão do Egito, formado em Alexandria, e que habilmente conseguiu revestir os ideais gnósticos com uma roupagem cristã. Chamava-se Cerinto e seus ensinos conspiravam contra a estabilidade da Igreja na Ásia Menor, particularmente Éfeso, o domicílio do apóstolo João em seus derradeiros anos.
            O que Cerinto ensinava? Como gnóstico, ele considerava a matéria essencialmente má. Deus não poderia ter criado diretamente o mundo, pois este é matéria, e Deus não Se relaciona com algo essencialmente mau. Deus, portanto, usara intermediários para criar. Um desses era Cristo, o qual não deveria ser confundido com Jesus, o vulto histórico que vivera na Palestina, e que, embora extraordinário, era um homem comum, filho natural de José e Maria. Cristo, entretanto, era espiritual, celestial e divino. Jesus e Cristo, portanto, eram distintos um do outro. Cristo se juntara a Jesus por ocasião do batismo, mas O abandonara pouco antes da cruz. Assim, a morte de Jesus não reunia qualquer valor salvífico. Ele fora apenas mais um mártir entre outros.
            Cerinto também ensinava uma escatologia antibíblica. Escatologia é a doutrina dos últimos acontecimentos, tanto para o ser humano individualmente, como para o mundo. Para o gnosticismo, a salvação começava para quem se apoderasse da gnosis. Tal aquisição contribuía para a libertação da alma, prisioneira que era de coisas ligadas à matéria. Todavia, a libertação plena e definitiva ocorria na morte. Para o gnóstico, o corpo era um cárcere, e quanto mais cedo a alma se livrasse dele, melhor. Portanto, a teoria da imortalidade da alma é de origem greco-pagã, e não é parte do cristianismo original.
            Em seu Evangelho e primeira Epístola, João combate frontalmente a dicotomia herética de Cerinto (tanto relativo ao homem como a Jesus) e outros enganos do gnosticismo. E no Apocalipse ele não deixa por menos. Já na abertura, João afirma que a revelação divina, o único meio de se obter a verdadeira gnosis, ou conhecimento, é feita por Jesus Cristo (1:1). Os dois termos indicam que apenas uma pessoa é pretendida. A designação completa, Jesus Cristo, aparece mais duas vezes neste capítulo, nos versos 2 e 5, o último contendo a declaração de que Ele é o “primogênito dos mortos” ou seja, Cristo positivamente morreu e ressuscitou. João não poderia ser mais claro. Ademais, é Este mesmo Jesus Cristo que em seguida apareceu em visão e lhe disse: “Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos” (v. 18)
            Além disso, observamos que, em termos de literalidade, é o Filho da mulher que é arrebatado para o trono de Deus em 12:5, e que o sacrifício de Jesus é de fato salvifico, pois garante ao homem o triunfo sobre Satanás (v. 11). Este sacrifício é também condição sine qua non para que a revelação, sem a qual, repetimos, não é possível nenhum correto conhecimento de Deus, se torne efetiva (5:5, 9). Finalmente, é este sacrifício que nos coloca no reino eterno (7:14-17; 22:14). A posse da vida autêntica, portanto, não ocorre nas condições do gnosticismo.
            Que a matéria não é essencialmente má, ao contrário de como entendia Cerinto, e que Deus é o direto criador dela, se depreende das palavras de 4:11. Além disso, Deus recriará o mundo após colocar um ponto final na história do pecado (caps. 20 a 22). E com isto, João contradiz a escatologia gnóstica com uma grandiosa descrição dos verdadeiros eventos finais: Deus extirpará o pecado e trará de volta, agora mais plenamente, o mundo perfeito e imaculado de antes. E João contesta o engano gnóstico da imortalidade da alma reafirmando que os crentes mortos tomarão posse da vida eterna exclusivamente através da ressurreição quando Jesus voltar (20:6).
            E assim, justamente quando conceitos falsos ameaçavam, na Igreja, a unidade da fé e da esperança, Deus fez o Apocalipse emergir. O fim do primeiro século estava chegando. Por algum tempo a Igreja esperara o retorno de seu Senhor, e Ele não viera. O gnosticismo acenava com as glórias da salvação já e agora com a posse da gnosis, e com a perspectiva da ida para o céu logo após a morte. Cristo então retornaria para quê?
            A Igreja, portanto, estava carecendo uma vez mais do amparo da verdade para o fortalecimento da esperança adventista, isto é, a esperança na segunda vinda de Jesus, como algo plenamente genuíno e necessário. A isto o Apocalipse se prestou de forma singular.
            Hoje vivemos no século 21. Cristo ainda não retornou e igualmente somos bombardeados com todo tipo de ideias, todas tentando se impor como verdadeiras. Que fazer? Nossa única alternativa segura é volver a atenção ao que a Bíblia diz. Particularmente o Apocalipse revela o que está para acontecer. Simplesmente não precisamos ser enganados.  
           Continuaremos na próxima postagem.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Tema 22

A Face Humana do Apocalipse - conclusão

Dr. José Carlos Ramos
Dezembro de 2013

            O Apocalipse foi escrito por alguém que desde a juventude foi um ardoroso seguidor de Jesus; seu nome era João, conhecido como o apóstolo do amor.
            Os dados biográficos de João, a exemplo de outras personalidades da igreja primitiva, aparecem esparsamente no Novo Testamento. Mateus o menciona apenas 4 vezes, Marcos 10 e Lucas 7. O quarto evangelho, o seu, menciona-o como o discípulo amado e como um dos filhos de Zebedeu.
            Ele era o mais jovem dos discípulos de Jesus. Alguns pensam que João não era muito estimado pelos demais, em vista de seu ambicioso desejo de ocupar o primeiro lugar no reino de Jesus. De fato, a cobiça, o amor à posição e à supremacia, e a avidez por promoção pessoal (Mt 10:35-37, 41) eram graves defeitos no caráter deste apóstolo. E não eram os únicos.
            Jesus o denominou, e a seu irmão Tiago, de “filhos do trovão”. Eram geniosos, impetuosos, fáceis de ressentimento e propensos à vingança (Lc 9:49-54).
            Por trás destes graves defeitos, porém, Jesus discerniu em João um ardente, sincero e amante coração. Embora muitas vezes repreendido pelo Mestre, apegava-se mais firmemente a Jesus, até que sua alma se amalgamou à dEle. Era o “discípulo que Jesus amava”, não porque Jesus não amasse os demais, mas porque mais efetivamente deixou-se dominar por esse amor, a ponto de ter a vida totalmente transformada. Em seu coração a chama da lealdade e devoção ardente tornaram-no um dos mais destacados apóstolos na igreja cristã. Entre Jesus e ele desenvolveu-se uma profunda amizade, mais intensa que em relação a outros discípulos.
            João abeberou-se tanto da Fonte, que alguns estudiosos e comentaristas de seu Evangelho creem que sua linguagem e estilo correspondem à linguagem e estilo de Jesus. Embora isso não seja provável, é indiscutível que João nos apresenta um quadro profundamente original e distintamente genuíno de Jesus. Ele percebeu que Cristo se encarnara para ser, unicamente Ele, uma perfeita revelação de Deus, em vista do íntimo e pleno conhecimento que tinha do Pai.
            Este fato despertou no apóstolo o anseio de adquirir um conhecimento de Seu Salvador tão íntimo e pleno quanto possível, e de se tornar assim uma autêntica testemunha dEle. Ele conseguiu lograr este grandioso ideal através de sua vida apostolar e de seus escritos. No último livro da Bíblia, por exemplo, ele nos oferece uma revelação final e surpreendente de Jesus. De fato, ninguém foi capacitado a exaltar melhor a Cristo que o apóstolo João, em que pese o fato de terem os demais apóstolos amado também a Jesus, e anunciado com todo o fervor as verdades concernentes a Ele.
            Se podemos considerar como sendo ele um dos dois discípulos de João Batista mencionados em João 1:35, teria ocorrido o seu primeiro encontro com Jesus quando o precursor, apontando para Este, proferiu pela segunda vez o clássico testemunho “eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1:36). Tal testemunho transformou-os em discípulos de Jesus. Mas é possível que o conhecimento que João tinha de Jesus antecedesse esse momento, na base de seu provável parentesco com o Salvador. Uma comparação entre Mateus 27:56, Marcos 15:40 e João 19:25 parece indicar que a mãe de João se chamava Salomé, e que era irmã da mãe de Jesus. Este e João, portanto, eram primos. Esta linha de parentesco, mais o fato de que ele era um dos íntimos discípulos, tornaram-no o mais indicado para cuidar dela quando Jesus morresse, daí o Salvador dirigir-se a ele como o novo filho de Sua mãe (Jo 19:26, 27). Outro íntimo de Jesus, e também Seu primo, era Tiago, irmão de João. Mas sem dúvida Jesus sabia que não muitos anos depois Tiago seria martirizado (At 12:2). João, realmente, era a pessoa mais indicada para aquela nobre tarefa.
            O testemunho do Batista, entretanto, ensejou um encontro mais pessoal e decisivo para que João se tornasse um seguidor de Jesus, inclusive de forma definitiva quando, mais tarde, junto ao mar da Galiléia, foi convidado pelo Mestre para que O seguisse (Mt 4:21, 22).
            Cedo João, a exemplo de Pedro e Tiago, tornou-se íntimo discípulo de Jesus. Ele testemunhou a ressurreição da filha de Jairo (Mr 5:37), a transfiguração (Mt 17:1), e, mais de perto, a agonia do Getsêmani (Mt 26:37). Esteve “aconchegado” a Jesus na hora da ceia, e reclinou a cabeça em Seu peito (Jo 13:23-25). Do Getsêmani, acompanhou o Mestre até a sala do sumo sacerdote, de quem era conhecido, e dali até o Calvário onde permaneceu até Jesus expirar e ser retirado da cruz (18:15). Os episódios descritos ao pé da cruz (19:18-35) são tão vívidos e reais que só uma testemunha ocular poderia assim narrá-los.
            Na manhã da ressurreição correu na companhia de Pedro, a ver o sepulcro vazio (20:3-8). Em companhia dos demais, viu o Salvador ressurreto, inclusive logo após voltarem à pescaria (21:7, 8). Nesta ocasião, após o diálogo de Jesus com Pedro, concluído com a pergunta deste quanto ao destino de João, Jesus fez uma declaração que, mal compreendida, levou os discípulos a imaginarem que João permaneceria vivo até a segunda vinda (v. 23).
            Lucas registra a atuação de João na companhia de Pedro, na pregação do evangelho logo após o Pentecostes (At 3:1-11), ao ser aprisionado sob as ordens do Sinédrio (At 4), e na pregação em Samaria (8:14). Paulo afirma que ele era uma das colunas da Igreja apostólica (Gl 2:9).
            João foi, entre os apóstolos, aquele que mais viveu, chegando à idade avançada. Nesta época, por instigação dos judeus, foi aprisionado pelo imperador Domiciano que ordenou fosse ele atirado a um caldeirão de azeite fervente. Milagrosamente preservado por Deus, o imperador o deportou à ilha de Patmos onde recebeu as visões do Apocalipse. Domiciano reinou entre 81 e 96. Segundo a tradição, Nerva, sucessor de Domiciano, libertou-o, voltando para Éfeso onde terminou seu ministério e seus dias. Como um dos lances finais de seu ministério, João empenhou-se no combate às tendências gnósticas que pressionavam a Igreja na Ásia Menor, sob a influência dos ensinos de um herege chamado Cerinto. De fato, uma clara resistência a estes ensinos pode ser sentida em seu Evangelho e epístolas. O Apocalipse se opõe a eles indiretamente.
            Afirma-se que, estando João para morrer, perguntaram-lhe se tinha uma última mensagem a dar. “Amai-vos uns aos outros”, disse, e expirou.
            João é um vívido exemplo do que graça de Deus pode fazer por um homem possuidor de graves defeitos de caráter, mas que a ela se entrega sem reservas. A educadora Ellen G. White afirma em seu magnífico comentário da vida de Jesus, o livro O Desejado de Todas as Nações, às páginas 557 e 559:

                  Quando o caráter do Ser divino lhe foi manifestado, João viu suas próprias deficiências, e foi feito humilde pela revelação. Dia a dia, em contraste com seu próprio espírito violento, ele observava a ternura e longanimidade de Jesus e ouvia-Lhe as lições de humildade e paciência. Dia a dia seu coração era atraído para Cristo, até que perdeu de vista o próprio eu no amor pelo Mestre. O poder e ternura, a majestade e brandura, o vigor e a paciência que ele via na vida diária do Filho de Deus, encheram-lhe a alma de admiração. Ele submeteu seu temperamento ambicioso e vingativo ao modelador poder de Cristo, e o divino amor operou nele a transformação do caráter...
                  Uma transformação de caráter como a que se vê na vida de João é sempre o resultado da comunhão com Cristo. Pode haver marcados defeitos na vida de um indivíduo, contudo, quando ele se torna um verdadeiro discípulo de Cristo, o poder da divina graça transforma-o e santifica-o. Contemplando como num espelho a glória do Senhor, é transformado de glória em glória, até alcançar a semelhança dAquele a quem adora.

                        Ser semelhante a Cristo! Poderia haver experiência mais preciosa a ser desfrutada?

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A Face Humana do Apocalipse - parte 1

Tema 21

A Face Humana do Apocalipse - parte 1

Dr. José Carlos Ramos
Novembro de 2013

            O maior livro profético da Bíblia, o Apocalipse, é declarado ser uma “revelação de Jesus Cristo” dada por Deus para benefício de Sua Igreja (Ap 1:1). Este título comporta dois sentidos fundamentais, um subjetivo, que aponta a Jesus como o autor da revelação, e outro objetivo, que O torna o objeto da revelação. Isto significa que a revelação é feita por Jesus e é acerca dEle e de Sua obra salvífica. O mesmo texto faz referência ao instrumento humano usado por Jesus para que a revelação se efetivasse e alcançasse o seu destino: “o seu servo João”. Quem foi ele?
            Bem, o Novo Testamento alude a pelo menos quatro pessoas que tiveram esse nome:

1.    João Batista, que morreu antes da crucifixão de Jesus;
2.    Um parente do sumo-sacerdote Anás, e inimigo do evangelho (At 4:6);
3.    João Marcos (At 12:12), o autor do segundo Evangelho;
4.    O apóstolo João, o discípulo amado e autor do quarto Evangelho.

            Por razões óbvias, nem o primeiro nem o segundo poderiam ter sido o escritor do Apocalipse. Dificilmente sê-lo-ia o terceiro. O estilo e a redação do último livro da Bíblia são bem diferentes dos do segundo evangelho. Ninguém na Igreja primitiva associou o Apocalipse a Marcos.
            As evidências apontam para o apóstolo João como o escritor. A tradição primitiva assim o reconhece, e todos os escritores cristãos até o 3° século confirmam esse fato.
            Também é crido que João passou os seus últimos anos em Éfeso. Irineu (130-202) declara que na sua juventude vira o idoso Policarpo de Esmirna que “conversou com muitos que tinham visto a Cristo”, entre eles João que permaneceu em Éfeso até os dias de Trajano (98-117). O próprio Policarpo teria sido um discípulo do apóstolo João.
            Policrato (130-200), bispo de Éfeso, também afirma que João, o discípulo amado que se reclinou no peito do Senhor, “repousou em Éfeso.” Vale notar que, no Apocalipse, o escritor se dirige à igreja desta localidade (Ap 1:4, 11).
            Alguns alegam a existência de outro João de influência na Igreja ao fim do 1° século, fundamentados no seguinte testemunho de Papias:

            “E não hesitarei anexar às interpretações tudo quanto aprendi bem dos presbíteros... Se, então, em qualquer tempo vinha alguém que seguira os presbíteros, eu inquiria acerca das palavras dos presbíteros, o que André, ou Pedro, ou Filipe, ou Tomé, ou Tiago, ou João, ou Mateus, ou qualquer outro dos discípulos do Senhor, disseram, e o que Aristion e o presbítero João, os discípulos do Senhor, dizem. Não suponho que a informação dos livros me ajudasse tanto quanto a palavra duma voz viva e sobrevivente.” (História Eclesiástica de Eusébio, III.39.3, 4).

            Baseado nesse texto, o historiador Eusébio concluiu que dois cristãos de destaque, chamados João, viviam na Ásia no fim do 1° século, o apóstolo e um presbítero, e que o último escrevera o Apocalipse, enquanto o primeiro escrevera o Evangelho.
            Todavia, uma das formas de interpretar a declaração de Papias é ver nela a presença de dois grupos de pessoas, com o nome João em cada grupo, mas com a instância de haver apenas uma pessoa com esse nome, mencionada duas vezes. As pessoas de ambos os grupos são chamadas de discípulos do Senhor. As do 1º grupo disseram, isto é, haviam vivido antes de Papias e anunciado as palavras de Jesus. As do 2º grupo dizem, isto é, viviam no tempo de Papias e anunciavam as palavras de Jesus. Se, como se acredita, o apóstolo João alcançou o final do 1° século, então Papias, que morreu em 163, foi seu contemporâneo, e pode tê-lo ouvido de viva voz. Neste caso, o apóstolo é tanto o 1º João citado como o 2º, com a diferença que, do corpo apostólico, ele era o único sobrevivente. Quanto a Aristion, não há qualquer outra referência, no Novo Testamento ou fora dele. Mas é significativo que, na declaração de Papias, Aristion não é chamado de presbítero, e sim João, o mesmo título aplicado aos apóstolos no 1º grupo. Não estaria Papias, então, se referindo a um apóstolo, ao mencionar pela 2ª vez o nome João?
            Alguns pensam também que João não poderia ter escrito o Apocalipse no fim do 1° século por ter sido morto muito antes pelos judeus, a exemplo do que aconteceu com o seu irmão Tiago (At 12:1, 2), o que teria cumprido a previsão de Jesus a respeito deles (Mr 10:38, 39). Mas isto não quer dizer que João haja morrido ao mesmo tempo de seu irmão. Vários anos depois do martírio de Tiago, João é mencionado por Paulo como sendo um dos baluartes da Igreja (Gl 1:9). Se por acaso ele também enfrentou o martírio, o que é improvável, seria bem mais tarde, pois o próprio Apocalipse dá a entender que no fim do 1° século os judeus ainda perseguiam os cristãos.
            A verdade, porém, é que não era necessário que João fosse martirizado para que as palavras de Jesus alcançassem cumprimento. O Salvador poderia perfeitamente estar se referindo à senda de sofrimento que os dois teriam pela frente, em contraposição ao pedido por grandeza feito por eles. Há ainda a se considerar as palavras de Jesus em Jo 21:22, “quero que ele permaneça até que Eu venha”, que, em contraste com o tipo de morte que Pedro enfrentaria (v. 19), podem significar que João não enfrentaria o martírio.
            Dionísio, bispo de Alexandria falecido em 265, também afirmou que o escritor do Apocalipse não poderia ter sido o apóstolo João, autor do quarto Evangelho, em vista da diferença de linguagem entre uma obra e outra. Muitas palavras empregadas com frequência por João no Evangelho, são raras ou mesmo omitidas no Apocalipse. O uso de sinônimos igualmente reforça essa posição. Exemplo: a palavra grega para cordeiro no Evangelho é amnós, enquanto que no Apocalipse é arníon.
            Devemos, todavia, lembrar que a natureza do assunto pode ter levado o escritor a empregar termos diferentes no Apocalipse face à necessidade de repetir ou combinar as afirmações de antigos profetas, considerando que os quadros do Antigo Testamento são predominantes no livro. As circunstâncias sob as quais o Apocalipse foi produzido devem ser igualmente levadas em conta. Foram bem menos favoráveis que aquelas sob as quais o Evangelho emergiu. O Apocalipse foi escrito sob condições adversas, na própria ilha de Patmos, palco das visões que proveram o seu conteúdo. Havia ali uma colônia penal e para lá o apóstolo fora enviado como prisioneiro. Vale lembrar também que, com respeito à composição do Evangelho, a tradição primitiva indica ter tido João a assistência de um secretário, o que também explicaria a diferença vocabular.
            Assim, a hipótese mais plausível aponta para o apóstolo João como o escritor do Apocalipse. Em minha próxima postagem veremos que sua experiência como seguidor de Cristo foi simplesmente maravilhosa. O exemplo que ele nos legou demonstra como a graça de Deus pode operar uma grandiosa transformação na vida daquele que a ela se rende.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Validade da Mensagem de Daniel - Conclusão

Tema 20

Validade da Mensagem
Profética de Daniel (conclusão)

Dr. José Carlos Ramos
Outubro de 2013

            No intuito de substanciar uma posição contrária à genuinidade profética do livro de Daniel, os críticos alegam duas evidências externas como indicativas de que esse livro é uma produção anônima do 2º século a.C. A primeira se liga ao processo de canonização, e a segunda é conhecida como a ausência de Daniel no “elogio aos pais” feito por Jesus Ben Siraque, autor do livro apócrifo Eclesiástico.
            Vejamos se, de fato, são válidas estas duas alegações.

A Canonização de Daniel

            Alega a alta-crítica que os judeus consideraram o livro de Daniel como de posterior produção, pois o incluíram na terceira divisão do cânon hebreu, conhecida como Kethubim (os Escritos), e não na segunda, conhecida como Nebbiim (os Profetas), conforme se pode observar no Talmude Babilônico, uma coletânea das tradições rabínicas datadas do 4º século d.C. Com base nessas conclusões, também afirmam que Daniel não foi reconhecido como profeta.
            Este ponto de vista deve ser rejeitado pelas seguintes razões:
            (1) Se o livro de Daniel deve ser datado do 2º século a.C. por pertencer aos Escritos, assim o deveriam todos os demais que formam esta divisão do cânon hebreu. São eles: Salmos, Provérbios, Jó, Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Esdras, Neemias, e 1 e 2Crônicas. Mesmo a alta-crítica, todavia, reconhece que vários documentos pertencentes a esta divisão são bem antigos.
            (2) A clássica divisão hebraica do Antigo Testamento não indica que os judeus reconheciam diferentes níveis de inspiração. Era apenas uma forma didática de referendar os escritos sagrados. A Torah, os Nebhiim, e os Kethubhim eram igualmente considerados a autoritativa Palavra de Deus, salvo para específicos grupos como os saduceus e samaritanos que aceitavam apenas a primeira divisão. Assim, a colocação de Daniel na terceira divisão não lhe confere menor importância que os demais livros. As três divisões não significam nem mesmo que ocorreram três estágios de canonização.
            (3) O historiador hebreu Flávio Josefo, duzentos anos antes da elaboração do Talmude Babilônico, colocou Daniel entre os profetas, o que indica que os judeus do 1º e 2º séculos a.D. assim o consideravam.
            (4) O Novo Testamento também o reconhece como profeta. O discurso escatológico de Jesus (Mt 24, 25; Mr 13; Lc 21), a referência paulina à vinda do “homem do pecado” (2Ts 2), e várias partes do Apocalipse têm a mensagem de Daniel como plano de fundo.             (5) Os judeus que traduziram as Escrituras Hebraicas para o grego koinê colocaram Daniel entre os profetas na Septuaginta, tal como aparece em nossas Bíblia, seguindo Ezequiel e antecedendo Oséias. A produção da Septuaginta é aceita como sendo de 280 a.C.
            (6) É reconhecido por vários estudiosos que Daniel foi inserido na terceira divisão do cânon porque os judeus não o consideraram um profeta no sentido técnico do termo. Ele não cumpriu o ofício de um profeta, como ocorreu com aqueles que assim foram considerados. Oficialmente ele foi mais estadista que profeta, e por aquilo que é relatado acerca dele em seu livro, somado ao testemunho de Ezequiel 28:3, os judeus o colocaram na galeria dos sábios de Israel. Mas os pontos acima indicam que eles viram na mensagem de Daniel os elementos proféticos necessários para torná-la tão normativa como os demais escritos proféticos.
            (7) Este fato é constatado pelo valor atribuído a Daniel pelos sectários de Qumran, comunidade hebraica do 1º e 2º séculos a.C. Eles sentiram que suas profecias estariam falando para seus dias. Ademais, os vários manuscritos e fragmentos do livro, encontrados nas cavernas 1 e 4, revelam a popularidade desta obra. Um florilégio, encontrado na caverna 4, registra uma referência a Daniel como “o profeta”. Por si só, isso denuncia a impropriedade da posição liberal.
            (8) Que a obra era considerada de valor profético noséculo a.C. se deduz de uma tradição, preservada por Josefo, sobre o sumo sacerdote Jadua interceptando Alexandre o Grande em sua marcha contra Jerusalém. Isto teria ocorrido entre a conquista de Tiro e a primeira batalha contra os persas, portanto antes de 334. Jadua, no traje sumo sacerdotal e acompanhado de vários sacerdotes também trajando as vestes do ofício, impressionou de tal forma o conquistador que este viu neles os emissários de um Deus que antes lhe aparecera em sonho garantindo-lhe a conquista do oriente. Entrando em Jerusalém, foi ao templo para adorar, quando então Jadua lhe teria mostrado as previsões Daniel a ele concernentes, segundo as quais seria o conquistador da Pérsia. Muito contente, Alexandre outorgou diversos favores aos judeus.
            Os críticos consideram o relato uma simples lenda, mas teriam que explicar por que Alexandre jamais perturbou os judeus. São também inconsistentes, ao aceitarem o que Josefo diz imediatamente antes da fala de Jadua. O historiador afirma em Antiguidades, XI, 7, 2 que Jadua procede dos tempos imediatos a Dario, possivelmente o segundo rei com este nome (423-404 a.C.), o que indica que a lista de sumos sacerdotes de Ne 12:10, 11 realmente data da época de Neemias e não de uma época posterior como alguns pensavam.
            A alta-crítica não questiona o relato de Josefo, mas rejeita a historicidade da visita de Alexandre a Jerusalém. Vale observar que Josefo é confirmado pelo papiros de Elefantina que mencionam Jônatas, pai de Jadua, como sumo sacerdote em 408 a.C.

Jesus Ben Siraque
           
            Em Eclesiástico 44-49, obra reconhecida como do século a.C., Jesus Ben Siraque, o autor, tece uma série de elogios a vários dos antepassados da história de Israel. Daniel não é mencionado, o que tem levado os críticos a reforçar o argumento de uma data tardia para os seus escritos. Isto, entretanto, bem pouco significa, quando se considera que o referido escritor jamais pretendeu esgotar a lista dos grandes vultos de Israel. Tanto que ele não menciona, além de Daniel, a Esdras, um dos líderes exponenciais do retorno dos judeus à Palestina; ninguém, por isso, invalidaria a realidade histórica deste homem, ou o colocaria em tempos posteriores à edição do Eclesiástico. Jesus Ben Siraque deixa igualmente de citar a todos os juizes, exceção feita a Samuel. Também não fazem parte de sua lista reis piedosos que marcaram época na realeza judaica, como Asa e Josafá. Nem o grande Mardoqueu, do livro de Ester, foi lembrado.
            Para fazer face a tal omissão da parte do autor do Eclesiástico existe um significativo número de referências diretas ou indiretas de Daniel na literatura intertestamental. Vejamos a lista:
                        (1) Fragmento Zadoquita (2º ou 1º século a.C.) contém várias citações de
                              Daniel;
                        (2) 3Sibilinos (145-140 a.C.), refere-se aos 10 chifres de Dn 7;
                        (3) Testamento dos 12 Patriarcas (109-107 a.C.) traz numerosas citações de  
                              Daniel;
                        (4) Livro dos Jubileus (109 a.C.) toma emprestado de Dn 9:24 o esquema de
                              semanas de anos;
                        (5) Salmos de Salomão (70-30 a.C.) fala da ressurreição citando Dn 12;
                        (6) A parte final de 1Enoque (64 a.C.) registra extensivas citações de Dn 7;
                        (7) Livro da Sabedoria (50 a.C.) cita Dn 12.
            Todas estas referências indicam uma coisa: a popularidade de Daniel, pelo menos nos círculos literários deste período. Os acréscimos apócrifos ao conteúdo original reforçam este fato. Estes acréscimos, todos produzidos nesse tempo, são: a oração de Azarias e o cântico dos três hebreus na fornalha, inseridos, nas versões bíblicas católicas, no capítulo 3 entre os vv. 23 e 24; e as histórias de Suzana e de Bel e o dragão acrescentadas no final do livro. Tal popularidade não seria possível proviesse o livro do mesmo tempo.
            Deixamos para o fim a menção de 1Macabeus, escrito entre 137 e 105 a.C., que além do registro de importantes citações de Daniel, perpetuou o testemunho do idoso sumo sacerdote Matatias, pouco antes de morrer em 166 a.C., tecendo um elogio, nos moldes de Jesus Ben Siraque, a vultos proeminentes da história de Israel, entre eles Daniel, Ananias, Azarias e Misael. Suas palavras foram:

    Porventura Abraão não foi achado fiel na tentação, e não lhe foi isto imputado à justiça? José guardou os mandamentos no tempo da sua angústia, e veio a ser o senhor de todo o Egito. Finéias, nosso pai, abrasando-se em zelo, pela lei de Deus, recebeu a promessa dum sacerdócio eterno. Josué, cumprindo a palavra do Senhor, veio a ser o chefe de Israel. Caleb, dando testemunho na assembleia do povo, recebeu uma herança. Davi, pela sua brandura, conseguiu para sempre o trono do reino. Elias, ardendo em zelo pela lei, foi arrebatado ao céu. Ananias, e Azarias, e Misael, crendo firmemente, foram salvos das chamas. Daniel, na sua simplicidade, foi livre da boca dos leões. (1Mc 2:52-60, Versão Matos Soares.

            Poderia um testemunho como este, em favor das últimas quatro personalidades mencionadas, ter sentido, tivesse o livro de Daniel sido escrito por um judeu anônimo, autor, como querem os críticos, de vários deslizes históricos, que viveu nos tempos da própria produção de 1Macabeus?
            Não há dúvida! O livro de Daniel procede mesmo do 6º século a.C. e traz a mensagem autêntica do profeta que teve esse nome.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Validade da Mensagem Profética de Daniel

Tema 19

Validade da Mensagem
Profética de Daniel

Dr. José Carlos Ramos
Setembro de 2013

            A forma como as profecias de Daniel foram registradas, somada ao fato de muitas delas alcançarem exato cumprimento em eventos que partem do domínio babilônico e avançam ― como é suposto pela alta-crítica ― até os dias de Antíoco Epifânio, tem levado os eruditos liberais, como já referi, a estabelecerem o 2º século a.C. como época da produção do livro. Isso é feito numa tentativa de justificarem o vaticinia ex eventu como critério de interpretação.
            Fossem aceitas as evidências que indicam o 6º século em lugar do 2º, e teriam de aceitar o elemento genuinamente preditivo da mensagem profética e reconhecer o caráter sobrenatural e divino de tais predições. Isto os críticos não estão dispostos a fazer.
            O conceito conhecido como vaticinia ex eventu determina que a exposição profética não passe de um simples relato de eventos históricos numa roupagem profética: o escritor se “desloca” para um tempo anterior aos eventos e então os narra na perspectiva de um profeta; tudo em contraste com o conceito referido como vaticinia ante eventu, segundo o qual o escritor não é apenas um escritor, mas um profeta no significado lato do termo, isto é, alguém que se situa antes do evento que é previsto e narrado.
            Mas para os críticos, uma grande porção do material profético de Daniel, que inclui os capítulos 2, 7, 8, 9 e, particularmente, 11:2-35, não passa de vaticinia ex eventu, acontecimentos já ocorridos no tempo do escritor. Para eles, os versos 36-39 tratam do que o rei sírio fazia contra os judeus quando o livro de Daniel estava sendo escrito, acontecimentos correntes; os restantes seis versos seriam os únicos, segundo os críticos, a serem considerados vaticinia ante eventu, ou autênticas predições, pois estariam descrevendo os últimos lances da carreira de Antíoco, ainda por acontecerem. Neste caso, afirmam os liberais, o escritor se equivocou prevendo fatos que jamais ocorreram.
            Esse parecer da alta crítica é adequadamente expresso na seguinte afirmação liberal do Dr. Brownlee: “O fim de Antíoco, predito em 11:40-45, difere da história de sua morte em 1 e 2Macabeus, e, portanto, representa presumivelmente predição real da parte do autor de Daniel, a qual nunca se cumpriu.” (William H. Brownlee, The Meaning of the Qumran Scrolls for the Bible, págs. 35, 36). Incrível!!!
            Nesse ponto, a alta crítica é incoerente, pois oferece ao livro de Daniel um tratamento diverso daquele oferecido a outras porções não explicitamente proféticas da Bíblia, aceitando a data tradicionalmente adotada para a produção dessa porções, face às evidências providas pelos documentos arqueológicos de Qumran (os manuscritos do Mar Morto).
            Por exemplo, os críticos abandonaram a ideia de que determinados Salmos e os livros de Eclesiastes e 1 e 2Crônicas foram originalmente escritos no tempo dos Macabeus (2º século a.C.). Esta era a posição sustentada por eles até a descoberta dos manuscritos do Mar Morto em 1947. Agora concordam com uma data bem anterior, em vista de cópias destas porções bíblicas terem sido encontradas em Qumran. A razão disto é que entendem que tais cópias não teriam sido feitas de originais tão recentes, os quais, por outro lado e acima de tudo, não teriam tido tempo para chegar a ser considerados material canônico como realmente o foram. A data das cópias é calculada ser em torno de 120 a.C. Por que não chegam às mesmas conclusões em relação às cópias de Daniel, encontradas no mesmo sítio arqueológico, e datadas mais ou menos da mesma época?
            O que aqui se observa é um clássico exemplo de como um critério preconcebido de interpretação, o que se poderia chamar de pressuposição filosófica, normatiza qualquer estudo analítico de um livro bíblico. Daniel não poderia ser o autor, não importam as evidências que apontem nessa direção, porque, segundo o livro, ele foi um profeta, e profetas, no sentido clássico, não existem. A época não pode ser o 6° século, também não importando as evidências desse fato, porque ninguém pode com tal exatidão prever o que irá acontecer. O local não pode ser Babilônia, embora tudo indique que sim, porque esta não foi o palco dos principais acontecimentos descritos, e sim a Palestina. E vamos por aí afora. Parafraseando Dn 2:36, “esta é a interpretação” (a dos liberais) e a abordagem introdutória não pode ser outra senão a que eles oferecem.
            E quando a mensagem do livro se mostra claramente favorável à posição tradicional, artifícios suspeitos são empregados para que a posição liberal permaneça intocada. Quando, por exemplo, o texto taxativamente não pode ser aplicado a Antíoco Epifânio, ou à sua época, os críticos dão um jeitinho, apelando para o recurso da acomodação textual. Evidência desse fato pode ser observada no trato preterista aos últimos seis versos de Dn 11, cuja mensagem é transformada em mero prognóstico do autor do livro quanto ao fim da carreira de Epifânio, uma previsão de eventos que jamais ocorreram com esse rei. Ou, então, o texto de 8:13, 14, 16, 26 e 27, considerado uma parte não autêntica do original, algo como o “produto de vários estágios editoriais” que deram origem a “duas fontes principais para o livro de Daniel”; ou então como uma “interpolação posterior”; ou ainda uma “secundária adição.” (Gerhard F. Hasel, “The ‘Little Horn,’ the Heavenly Sanctuary, and the Time of the End: A Study of Daniel 8:9-14”, pág. 383. Ver também págs. 386, 391, 394, 395, 400, 404, 410, 434, 439, 444).
            Resta, então, indagar: Está correta a interpretação liberal? É o preterismo assumido por ela a expressão da verdade? Não pode esta forma de interpretação ser um grande equívoco, e, em resultado, as próprias questões pertinentes à autoria, data e local da produção de Daniel serem abordadas de maneira igualmente equivocada?
            Com todo o respeito, creio que sim. “...Normalmente os exegetas que favorecem esta interpretação tomam o modelo da perseguição de Antíoco e emendam, mudam, reconstroem, traduzem e interpretam o texto de tal forma que o fazem harmonizar mais ou menos com o modelo histórico selecionado... Estas tentativas por intérpretes e tradutores testificam acerca da dificuldade de se ajustar o capítulo 8 à interpretação antioquiana. Emendas arbitrárias do texto hebraico em contradição ao suporte manuscrito dificilmente permite uma evidência favorável à interpretação provida por estes eruditos crítico-históricos.” (Ibidem, págs. 407, 411).
            Negar uma porção profética da Bíblia é, de fato, negar a própria Bíblia, pois toda ela é de natureza profética. Mesmo uma olhadela superficial ao Antigo Testamento é suficiente para nos convencer de que os profetas que falaram em nome de Deus não apenas descreveram os eventos de seus dias, mas adiantaram o que haveria de vir num futuro próximo e também distante. Portanto, rejeitar as profecias de Daniel como autênticas, é rejeitar o dom profético e o fato de que o Deus verdadeiro Se revela, e segue cumprindo o seu propósito na História. É, finalmente, negar o próprio cristianismo, cujo Fundador viu em Daniel um profeta, e em suas profecias o elemento preditivo da História (ver Mt 24:15).
            Que Daniel foi considerado um porta-voz de Deus a Seu povo e aos opressores deste é claramente discernido em sua mensagem, dada com profundidade tal que o próprio profeta às vezes ficava sem entender plenamente o alcance da revelação. A parte histórica de seu livro (caps. 1-6) demonstra vividamente que o divino propósito vai sendo cumprindo mesmo quando aparentemente os opressores triunfam; ela pode ser considerada um verdadeiro prólogo à parte profética (caps. 7-12), a qual atesta claramente que este propósito continuará a ser cumprido até que alcance seu ponto culminante na restauração final de todas as coisas. E isso a despeito de toda oposição que estes opressores continuarão a oferecer. Nesse sentido, há um tipo de determinismo no curso dos eventos conforme a história prossegue, determinismo que jamais deve ser confundido com fatalismo, pois é claro na mensagem do livro que Deus respeita o livre arbítrio humano; os homens são livres para decidir a favor do plano divino ou contrariando Seu propósito de restauração; terão, naturalmente, que assumir as consequências inevitáveis da decisão tomada. Em verdade, respeitando-se a soberania dos propósitos divinos, Deus e o homem interagem na história.
            Portanto, a parte histórica do livro de Daniel prepara o pesquisador para apreciar mais significativamente suas profecias na segunda parte. Tomem-se, por exemplo, os episódios de ameaça e perseguição registrados em Dn 3 e 6; as provas pelas quais passam Daniel e seus amigos se tornam um tipo do que os santos do Altíssimo enfrentam, conforme a previsão de Dn 7:21, 25. Assim, ambas as partes, história e profecia, se inter-relacionam, e reiteram o sentido de unidade de todo o livro. 
            Consequentemente, as profecias de Daniel não se estendem até Antíoco, como querem os liberais, mas até a consumação final da História. Tomando o próprio 2° século como referência, Harrison questiona a posição liberal nestes termos: “Se a obra é realmente uma retroprojeção do tempo dos Macabeus, como tem sido reivindicado por muitos críticos, não é fácil ver como judeus beligerantes poderiam ter sido encorajados por uma narrativa de história passada feita na aparência de uma profecia, como nos capítulos 8 e 11. Ademais, desde que algumas das seções apocalípticas estiveram aparentemente além da compreensão do próprio Daniel, não dá para imaginar que os judeus macabeus teriam tido qualquer grau superior de entendimento ou iluminação, e consequente encorajamento, considerando que muitas das alusões são tão enigmáticas que desafiam uma explicação ou identificação precisa, particularmente em 11:30-45. (R. K. Harrison, “Daniel”, The International Standard Bible Enciclopedia, 1:862).
            O fato é que o 6º século é a época da produção do livro, e, para tal, atesta a forma de introdução dada pelo escritor às visões. Schwantes observa que Daniel registra a data das visões, o que igualmente ocorre com Ezequiel, Ageu e Zacarias, todos do 6º século. Produções posteriores, incluindo o livro de Malaquias, e particularmente as obra pseudoproféticas do 2º século, como Jubileus e Enoque, fogem a este padrão. “O hábito de datar as visões, tal como se esboça no livro de Isaías e que tem seu pleno florescimento nos livros de Jeremias e Ezequiel, continua influenciando os profetas Daniel e Ageu, para logo declinar posteriormente. É, pois, evidente que esta constatação favorece a data tradicional do livro de Daniel, em que pese a preferência da data proposta pela crítica liberal. (S. J. Schwantes, “La Fecha del Libro de Daniel”, Theologica VIII, nº 2, pág. 93).
            Quando os judeus se viram assediados por terríveis inimigos, a impressão era de que não haveria qualquer condição de escape e muito menos de vitória. Mas o rei Josafá, cheio de fé e coragem, conclamou o povo a se apegar às promessas de Deus apresentadas por Seus porta-vozes. “Crede no Senhor vosso Deus”, bradou ele, “e estareis seguros; crede nos Seus profetas e prosperareis” (2Cr 20:20). Em seguida veio o maravilhoso livramento: o próprio Deus batalhou por Seu povo e venceu os inimigos.
            Esse fato continua verdade hoje. Se queremos viver uma vida cristã vitoriosa, e desfrutar acima de tudo a salvação provida por Deus, ainda temos que dar a devida atenção à palavra profética da Bíblia, que será qual lâmpada a nos guiar no obscuros caminhos deste mundo até que a luz divina raie para sempre em nossa vida (2Pd 1:19). É por essa razão que conceitos negativistas, tais como os da alta crítica, que ignoram o valor profético do livro de Daniel, precisam ser sumariamente rejeitados.

Conclusão: Melhor Qualidade à Frente?

            Os críticos alegam que não apenas evidências internas apontam o livro de Daniel como “fraude piedosa”; existem também evidências externas que substanciam essa posição.
            Bem, já vimos que as internas não passam de simples conjecturas geradas pelo convencionalismo acadêmico liberal. Teriam as externas melhor qualidade? Continuemos a conferir.